Quentes e boas…

Numa rua de Lisboa, fumo de cheiro a castanha.

Gritos ao longe… São crianças num corropiu!!

Hoje em um pio!

Quem quer quentes e boas??

Cascas no chão, dinheiro na mão

Sai mais uma dúzia,

Assim me lembro quem dizia…

De cabelo grisalho e sorrisos rasgado, o velho lá do bairro.

Com suas castanhas assadas por todos era lembrado.

by: Cláudio Bravo

Um último risco

Sacudi as folhas, grãos de lápis no chão, esboços e rabiscos, num emaranhado de paisagem.

O traço feito de mão trémula, como ondas no mar… Não tenho como acabar, apenas mais um risco.

Fogem as cores que tentei pôr na tela, misturas feitas de lembranças num tom rubi, que ainda se vê escorrer sobre os lábios, depois de um gole envidraçado.

Pincéis que compõe a arte de te recordar, traço a traço… O teu sorriso num último risco.

Que nem um Picasso, misturo letras… Componho arte a contrapasso, nesta tela vazia de cores, vivem as letras dos amores.

No final da inspiração, assino assim a despedida… sem correr qualquer risco.

by: Cláudio Bravo

Melancolia

Tive a morte na mão, numa imensa solidão… Foi brutal, imensa, com um toque de violência.

Escorre pelas mãos, nas paredes, o vermelho escarlate… Licor da vida.

Não é meu nem é teu… Quem levou uma facada?

Soam gritos, murmuram as paredes… Ecoam na memória, algo contado… Melancolia.

Na rádio, noticiam um assassinato, foi o verbo do adeus, levou de mim o último sorriso, o último suspiro.

Assinei a vermelho a minha história, em lágrimas de sangue, adeus melancolia.

by: Cláudio Bravo

Altitude

Alto… Pra lá das nuvens, fui subindo sem dar conta da queda.

Faltam-me asas… Voei com a imaginação sem sair do lugar, não me estatelei no chão.

Rasguei folhas, contos e estórias… Tudo para contar as minhas.

Nas nuvens fiquei… De asas abertas e de memória apagada, sem tempo.

Rabisco sobre folhas desenhos lunares, de lugares nossos, fugazes… Onde a memória voa ao teu encontro.

Altitude… Do meu ego que se ergue no imenso momento do teu sorriso. Já estou no ar.

Sem paraquedas, sem asas… No chão, apenas tu me podes dar a mão, pois a essa altitude… Voa o meu coração.

by: Cláudio Bravo

Desem…prego

Hoje cravei mais um,

Fiquei pregado a cruz, e num ápice… Nada mais a fazer.

Senti-me a morrer, ao som do último prego… Último trabalho, menos um dia.

Assim se foi a minha alegria, num caixão feito de saudade, do tempo que se foi e não volta.

Na mão o toque fugaz do tempo, como se me pagasse pelas horas feitas, num desapego… E vai mais um prego.

Desemprego, filas a espera da esperança… Conto o tempo que a idade levou… Num currículo escrito a mão… Cheia de rugas, de calos.

Mais um dia, martelo o tempo… Sons que me levam ao esquecimento, ao vazio… Saudade.

Desemprego o tempo que tenho na busca de algo que pague o tempo que me resta.

by: Cláudio Bravo

Vai e volta

Vai, procura o tempo que perdeste, marca o teu caminho… Em caso de erro volta, trás contigo a sabedoria dos teus erros. Cada dia uma lição.

Não te deixes no chão… Ergue-te como uma montanha, sé tu o trilho, e os obstáculos… Não existem facilidades no caminho, que não seja uma queda o fim… Aprende com os teus erros.

Caminhos fáceis também os há, mas mantém os pés no chão, por algum motivo poderás perder o equilíbrio, vai e volta na certeza que hoje aprendeste mais uma lição. LEI DO RETORNO

Ser autista

Desde muito cedo eu tinha a certeza de que havia algo de diferente comigo… só não sabia dizer o que era. Fui uma criança extremamente quieta e educada, que seguia as ordens a risca e que tinha intensas crises quando algo saia do combinado.
Minhas brincadeiras eram diferentes das brincadeiras das outras crianças (na minha visão, eles é que brincavam errado). Em casa, eu passava horas desenhando, criando histórias e lendo. Na escola, eu era o aluno mais obediente e dedicado, mas também era um dos mais difíceis de lidar. Com frequência eu ia para sala da diretora, pois era pra lá que me mandavam depois que eu apanhava dos outros meninos, ou quando eu ficava muito mal e minha mãe tinha que ir me buscar. Fazia coisas muito acima da média para uma criança da minha idade e ao mesmo tempo não conseguia fazer o que era simples para grande maioria, como, por exemplo, brincar com outras crianças.
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Hoje sei que eu não era uma criança estranha, mas sim uma criança autista. Sei que eu não era tão medroso quanto parecia ser, mas sim um menino muito corajoso. Aliás, imagine a coragem necessária para enfrentar um mundo que te ensina que o correto é ser como os outros, sendo você uma criança autista sem nem saber que era autista… 😬 difícil.
Mesmo não sabendo me expressar muito bem, eu já percebia ser um garoto diferente e percebia quando me excluíam, ou quando eram legais comigo.
Acho que eu fui uma criança bem feliz… mas teria sido mais fácil se as pessoas não fossem tão difíceis.
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(Se você leu esse texto e ficou com pena de mim, saiba que vc interpretou errado)

Retirado de um post no Instagram…. Dedico a todos os autistas em especial ao meu filho.
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A miseria

Eu escrevo as letras que queres que eu escreva
Com as palavras que eu ouso usar
Aquelas que tens-me ensinado
Ao longo dos anos

Tu fazes uma sombra perfeita no papel
Apagar-se com a luz solar
Eu temo a maneira como tu me conheces
O amor pode deixar uma mancha

Roubas minha única esperança
E fazes-me ficar acordando outra noite
Desejo que tenhas paciência comigo, fiques perto de mim
Quando as folhas de outono caírem

Solidão, minha dor, a última coisa que sobrou de mim

Se caires, eu te levanto
Se me amares, eu te amarei
E assim será, minha querida
Não tenhas medo, estarás a salvo
Isto eu juro, se tu apenas me amares

Sete mentiras solitárias
Escritas numa noite fria de inverno
Abrem o único livro
Com o único poema que posso ler
Em sangue assino meu o nome
E prendo a meia-noite com uma lágrima
Queimo o papel
Cada linha pela qual eu chorei

Se caires, eu te levanto
Se me amares, eu te amarei
E assim será, minha querida
Não tenhas medo, estarás a salvo
Isto eu juro, se tu apenas me amares

Eu sou o dramaturgo
E tu és minha coroa
Me fazes chorar pelo teu amor
Como fizeste tantas vezes
Então eu sei
Eu não posso escrever essas histórias sem ti
Senhora dor, faz me forte
Não podemos ficar juntos sem eles para sempre

As palavras que escrevo podem apenas magoar-te
Desculpa pela chuva
Obrigado, minha rainha
Tu deste-me esta dor
Eu te deixo gentilmente no chão
Dou um passo em direção à porta
Onde está a carta nunca escrita
Boa noite agora

Se caires, eu te levanto
Se me amares, eu te amarei
E assim será, minha querida
Não tenhas medo, estarás a salvo
Isto eu juro, se tu apenas me amares

Se caires, eu te levanto
Se me amares, eu te amarei
E assim será, minha querida
Não tenhas medo, estarás a salvo
Isto eu juro, se tu apenas me amares

“sonata artica – The misery”

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Esperança esquecida

Falta-me a memória… O tempo. Esqueci-me de te dizer bom dia, algo que eu sempre fazia.

Longe vão os dias com boas conversas de fim da tarde, sorrisos embriagados em tons de tinto, memórias.

Vejo o vazio num verde vidrado das garrafas que sobraram, cada gota de cor rubi que no canto da boca escorre, fossem beijos… Já se foram.

Esqueci da cor translúcida dos teus olhos, onde como um espelho me revi vezes sem conta, fragmentos da minha história, uma esperança esquecida.

Um banho frio matinal, um beijo e um desejo, que não me falte de ti a memória, porque esse seria o meu final.

by: Cláudio Bravo

E chegou o outono

Senti uma brisa fresca pela manhã, vi nuvens no horizonte, vem a chuva… Já me cheira a outono.

Cheira a terra molhada, a castanha assada… E cai uma chuvada.

Voam as folhas, pintadas de sol. Caindo no chão algumas na mão. Como peças de puzzle completam um tapete onde correm crianças num jogo alegre.

E chegou o outono, dizem na meteorologia. Trás com ele a chuva e a nostalgia, anuncia por fim que acabou o verão.

Hoje marca mais um dia, de guarda chuva na mão, há um mês a trás era o guarda sol e o cheiro a verão, a minha estação.

Já passou, agora é assim… Chegou o outono.

by: Cláudio Bravo